Os efeitos incertos de uma possível guerra cambial entre EUA e China

Em mais um acirramento na disputa comercial entre americanos e chineses, o Departamento do Tesouro dos EUA acusou formalmente nesta segunda-feira (5) a China de ser um país "manipulador cambial", após o Banco Popular da China (o banco central do país) ter permitido que a moeda chinesa, o iuan, se desvalorizasse em relação ao dólar.

A afirmação dos EUA foi seguida de uma declaração do chefe do banco central chinês, Yi Gang, afirmando que seu país não usaria o iuan como uma ferramenta para lidar com as disputas comerciais. Num editorial publicado nesta terça no jornal oficial do Partido Comunista Chinês, o People's Daily, Pequim acusou os EUA de "deliberadamente destruir a ordem internacional" com "unilateralismo e protecionismo".

Analistas ainda discutem o movimento da China para desvalorizar a moeda nacional, rompendo a marca simbólica de 7 iuans por dólar pela primeira vez em mais de uma década. Para muitos, é um sinal claro de que Pequim pode estar disposto a afrouxar sua relutância em aceitar um iuan ainda mais fraco em meio a um contexto de um acirramento da disputa comercial com os EUA.

Afinal, a queda acentuada da moeda chinesa foi resultado da afirmação do presidente americano, Donald Trump, de que iria aplicar tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em importações chinesas a partir de 1º de setembro – violando abruptamente uma trégua num conflito comercial que já afetou cadeias de abastecimento e levou a um crescimento econômico mais lento.

Havia anteriormente uma esperança de que o banco central chinês não aceitasse uma moeda mais fraca para não colocar em perigo mais uma rodada de negociações comerciais com os EUA.

Mas ainda não se sabe se Pequim irá realmente continuar nesse caminho. Embora a segunda maior economia do mundo tenha vivido um desaceleramento econômico em meio a uma disputa comercial mais difícil, o gigante asiático não sofreu uma fuga de capitais em grande escala.

As autoridades podem estar preocupadas com a possibilidade de grandes fugas de capital serem o resultado de longo prazo de uma guerra cambial desenfreada. Eles podem muito bem estar interessados em, eventualmente, estabilizar o iuan em torno do nível de 7,2 ou 7,3 iuans por dólar, como sugerem os analistas.

Por outro lado, a perspectiva de ganhos de curto prazo na forma de exportações mais baratas, como uma forma de compensar as tarifas mais elevadas dos EUA, pode se revelar promissora demais para ser ignorada.

Dada a economia planificada da China, é difícil prever se o país realmente vai começar uma guerra cambial, afirmou o diretor do Instituto Econômico Alemão, Michael Hüther, em entrevista à DW.

"A China é realmente uma história difícil", disse Hüther. "Não é realmente uma economia de mercado, e [o governo] certamente tem sua própria agenda econômica, política e militar."

Pelo menos, a depreciação do iuan desta segunda-feira não foi, de modo algum, a primeira do gênero da história recente. Antes, a moeda havia rompido outras barreiras psicologicamente importantes.

Há muito tempo, o banco central chinês tinha atrelado a moeda ao dólar, ou melhor, a um conjunto de moedas dominadas pela moeda americana. Durante muito tempo, o credor manteve o iuan dentro de uma faixa de negociação de aproximadamente 6,25 iuan por dólar.

Então, em agosto de 2015, o banco central chocou os mercados de câmbio ao permitir uma depreciação da moeda até 6,38 iuans por dólar, antes de uma nova queda em janeiro do ano seguinte. Em 2017, a moeda chinesa caiu para seu menor valor em nove anos.

O governo rejeitou a possibilidade de uma guerra cambial, afirmando que apenas pretendia compensar a alta do dólar – o que tornava as exportações chinesas mais caras. A moeda da China subiu novamente até o final daquele ano, após uma queda significativa no valor do dólar.

No entanto, Trump tem frequentemente criticado a China – além do Japão e da zona do euro – por usar a manipulação internamente para ganhar uma vantagem econômica em relação a parceiros comerciais como os EUA. Uma fraqueza continuada do iuan certamente reacenderia a ira de Trump.

Na realidade, sendo uma economia de mercado, os EUA não podem realmente forçar a desvalorização de sua moeda, de modo a impulsionar os exportadores domésticos ao tornar seus produtos mais baratos no exterior. Mas a implementação de uma ampla gama de instrumentos da política fiscal e monetária pelo Fed, o banco central dos EUA, tem praticamente o mesmo efeito.

A história sugere que uma política de desvalorização competitiva geralmente só oferece uma vantagem de curto prazo sobre os rivais. Tentativas sistemáticas de desvalorização têm ocorrido pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial, quando países abandonaram um sistema em que o papel-moeda estava ligado às reservas de ouro de uma nação, o chamado padrão-ouro. Isso abriu caminho para que eles manipulassem suas moedas artificialmente.

Fonte: G1 | Deutsche Welle (Adaptado)

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