Não devolver a bandeja no shopping preserva empregos?

Poucos assuntos geraram mais respostas do que um da semana passada: por que as pessoas não devolvem o carrinho no estacionamento do supermercado? É uma prova do que esse blog tem tentado fazer, mostrar o impacto da economia no dia dia.

Entre muitas respostas interessantes, algumas merecem discussão. Um argumento bastante usado foi de que o custo de ter um funcionário recolhendo os carrinhos já está incluído nos preços, por isso, ninguém precisa devolver. Mas uma resposta foi ainda mais frequente:

 “Não devolvo porque isso gera emprego”, comentou um leitor. “Se eu guardar, o supermercado demitirá alguém por ociosidade”.

Em princípio, parece um ato generoso. Deixar um carrinho no estacionamento ou a bandeja na mesa nas praças de alimentação ajudaria a criar um emprego, da pessoa que vai buscá-lo. Para variar um pouco, vamos tratar das bandejas.

Essa pessoa poderia ser aprendiz ou alguém com baixa qualificação, beneficiado em um caso simples de oferta (bandejas sujas) x demanda (pessoal necessário para a limpeza). Mas o raciocínio ignora que os funcionários não apenas recolhem bandejas como são encarregados de várias outras tarefas – esvaziar a lixeira, recolher o lixo e limpar as mesas ou mesmo o chão. Numa lanchonete de fast food, eles também ajudam na cozinha nos momentos de pico.

O governo de Cingapura há mais de uma década discute essa questão. Primeiro porque muitos funcionários que fazem o trabalho são idosos. Mas, principalmente, porque as grandes praças da alimentação a céu aberto, vendendo comida barata, são bastante populares no país. A montanha de comida deixada nesses locais é um problema de saúde pública.

Pelos números do governo, quase 3 em cada 10 pessoas não botam a bandeja no lugar ou, pior, abandonam a comida em cima da mesa, dando mais trabalho ao pessoal da limpeza.

O governo de Cingapura também investigou a hipótese de que não devolver a bandeja preserva empregos. Um estudo do Ministério do Desenvolvimento e Recursos Hídricos sugere que não faz diferença. São vagas com poucos candidatos em um país que tem a melhor educação do mundo.

A não devolução afeta muito mais a limpeza das mesas. Se as bandejas fossem todas devolvidas no lugar, aumentaria consideravelmente a produtividade dos trabalhadores, que poderiam limpar e liberar mesas mais rápido, beneficiando os clientes que hoje esperam mais para comer. E o trabalho deles seria bem menos cansativo.

Para lidar com esse problema, alguns locais adotam uma taxa de coleta da bandeja. Ao pedir a comida, é adicionada uma pequena quantia, entre R$ 1,40 e R$ 2,75 na moeda local, devolvida se o cliente leva a bandeja de volta. Porém não houve grande efeito nas devoluções. Como já discutido, toda multa é um preço. Ao pagar, alguns clientes consideram que têm direito a não devolver a bandeja.

Outro experimento foi pagar o equivalente a R$ 0,55 a quem devolve a bandeja. O valor não faz parte da conta e tem gerado bastante discussão. Lojistas reclamam que foi criado um custo oculto para as mercadorias, considerável, já que a maioria dos clientes devolve as bandejas.

 

A experiência que deu mais certo envolve uma terceira iniciativa. O governo há seis anos inclui nas bandejas pequenos cartões estimulando a devolução. Os funcionários da limpeza também passaram a vestir camisetas com dizeres pró-coleta.

 

Com isso, número de bandejas retornadas aumentou dos 54% anteriores para os 73% de hoje.

Fonte: G1 | Samy Dana

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