O preço do preconceito? Um estudo responde

Uma das preocupações das empresas hoje é a diversidade. Ainda falta muito a atingir nesse tema, mas é evidente que agora é mais fácil encontrar pessoas de diferentes etnias convivendo e trabalhando juntas. A ideia é que esse novo cenário leva a mais tolerância, com a convivência de grupos diferentes, e menos preconceito no trabalho. Já as empresas ganham por captar os melhores funcionários, não importa a origem.

Para a maioria, certamente é assim, mas nem todos. Uma quantidade considerável de pessoas está disposta a abrir mão de ganhos ou até perder dinheiro para não conviver com um grupo diferente. Essa foi conclusão do um estudo de Morten Hedegaard e Jean-Robert Tyran, dois economistas da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, é um exemplo dos percalços da nossa irracionalidade.

Ter um funcionário preconceituoso é custoso para as empresas. É comum que a vítima da perseguição se demita ou seja demitida, impondo, fora indenizações ou mesmo processos, a perda no potencial do empregado que saiu como a de um eventual substituto que não seja tão competente. Tudo isso tem um custo, mas pode ser calculado?

Os dois pesquisadores achavam que sim e, para demonstrar, montaram um experimento, contratando 162 adolescentes, estudantes de escolas públicas de Copenhague. A tarefa era dobrar no envelope cartas ou pequenos presentes para serem enviados a um grupo de destinatários. Metade dos participantes tinha nomes típicos do país. A outra metade, nomes de origem muçulmana.

Numa primeira fase, todos trabalharam sozinhos por uma hora e meia e fecharam quantos envelopes conseguiam. Quase uma semana depois, um dia antes de voltarem para outro dia na mesma tarefa, foram informados que teriam ter de refazer todo o trabalho. Simplesmente, não tinha ficado bom.

Mas as regras mudaram: eles iriam trabalhar em duplas e poderiam escolher o parceiro. Para metade dos participantes, foi apresentada a opção entre um nome dinamarquês ou um islâmico, como Emily x Lakisha ou Bertrand x Mullainathan. Mas a outra metade, além dos nomes, também foi informada quantas cartas a pessoa produziu no primeiro dia.

Você tem que trabalhar com alguém e sabe que alguns colegas são competentes e outros, não. O lógico é escolher o parceiro mais capaz, certo? Isso é o que alguns economistas defendem. Afinal, cada pessoa deve buscar ganhar o máximo, preenchendo o máximo de envelopes.

Mas quase 4 em cada 10 participantes entre aqueles que sabiam da competência dos colegas preferiu abrir mão de um pagamento maior a trabalhar com uma etnia diferente. As pessoas com nomes tipicamente dinamarqueses preferiram nomes com a mesma origem, mesmo que menos competentes. E o mesmo aconteceu com os islâmicos. Não importa a classe social, acontecia sempre o mesmo.

Tendo apenas os nomes para decidir um parceiro e sabendo que todos estudavam nos mesmos colégios, um grupo decidiu com base em suas crenças a respeito de qual etnia podia ser envelopar mais cartas. Este tipo de preconceito é mais disperso e levou a um resultado mais ou menos parecido das duplas.

Mas no grupo houve dois resultados: as duplas formadas com base nos melhores trabalhadores teve um desempenho superior às demais. E aqueles que rejeitaram colegas competentes por causa da etnia receberam 5 euros a menos. Pode não parecer muito, mas o prêmio foi 8% menor. Esse foi o custo do preconceito.

No Brasil, dificilmente alguém deixaria de trabalhar com outra pessoa por causa do nome. Tampouco temos as tensões sociais e religiosas da Europa. Isso não quer dizer que o preconceito não seja um problema aqui. Vários levantamentos têm demonstrado que negros, por exemplo, continuam enfrentando desigualdades no mercado de trabalho.

Esse preço demonstrado pelo estudo também está sendo pago aqui, principalmente pelas empresas, já que afeta a produtividade das equipes. Que estudos como esse sirvam de alerta a empreendedores e gestores.

Fonte: G1 | Samy Dana

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