Os mercados financeiros ficam traumatizados?

Por muito tempo as bolsas de valores foram vistas pelos economistas como um mercado onde imperava a razão. A Hipótese do Mercado Eficiente, a teoria de que os preços os mercados refletem as informações disponíveis, acessíveis para todos, que, assim, fariam suas opções de investimento garantiam, em tese, um equilíbrio de preços.

No entanto, de algumas décadas para cá sentimentos como otimismo e pessimismo, principalmente, mas também medo, ganância, excesso de confiança expectativa e circunstância acabam influenciando as operações. Investidores muitas vezes são irracionais e, com isso, os mercados se tornam mais voláteis.

Julian Kozlowski, um economista do Fed, o banco central americano, e dois professores, Laura Veldkamp (Columbia) e Venky Venkateswaran (New York University), queriam verificar um sentimento em particular: será que o trauma de uma grande crise continua a influenciar os mercados muito tempo depois?

Antes da crise financeira, em 2008, um analista ou operador que alertasse que o mercado financeiro iria colapsar provavelmente seria ridicularizado. Mas hoje essa é uma ideia muito mais frequente nas análises internacionais. Mesmo revistas como a The Economist já falam de uma nova grande crise no horizonte.

Apesar das seguidas previsões negativas, as bolsas internacionais renovam sucessivos recordes e a Amazon e a Apple ultrapassaram recentemente o valor de mercado de US$ 1 trilhão. A causa do pessimismo de alguns investidores seria estarem traumatizados?

E a resposta é sim, sugere o estudo, publicado em fevereiro deste ano no relatório anual do National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos. O estresse criado com as perdas de 2008 deixou uma quantidade considerável de investidores cautelosos demais e temerosos de passar pela mesma experiência.

Esse trauma, segundo os três economistas, é a razão da preferência exagerada de investidores por títulos dos governos dos países mais ricos, considerados aplicações seguras, o que mantém as taxas de juros mais baixas.

O medo do risco sempre acompanhou as bolsas de valores, mas atualmente muitos investidores incorporam a chance de uma catástrofe nos mercados às suas decisões, impedindo, ao preferir os investimentos mais seguros, que os demais mercados se valorizem como deviam.

Para estimar o efeito psicológico da crise nos mercados, os pesquisadores usam um modelo matemático, incorporando dados sobre o mercado financeiro desde após a Segunda Guerra Mundial e até 2016. Mesmo eventual, o efeito dos choques econômicos, diz o trabalho, se torna permanente por ter sido incorporado às experiências dos investidores.

E se a crise não vier? Mesmo nesse caso, sugere o estudo, o efeito do trauma de 2008 ainda pode se estender por 20 anos ou mais, mantendo a taxa de juros dos títulos públicos 1% abaixo do normal.

Ninguém de fato sabe se o mercado pode ou não entrar em colapso. O que o estudo demonstra é como os sentimentos formam nossas expectativas.

Fonte: G1 | Samy Dana

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