Ter esperança ajuda alguém a sair da pobreza?

Dizer que a esperança é a última que morre repete um dos clichês mais conhecidos, mas estar esperançoso teria, no fundo, algum poder de motivar?

A resposta pode vir de lugares de pobreza extrema. Uganda é um país africano que ficou mundialmente famoso há mais de 40 anos por um ditador extravagante, Idi Amin. O país amarga 162º IDH, Ìndice de Desenvolvimento Humano, do mundo. É onde Emma Riley, uma graduanda em Economia da Universidade de Oxford, decidiu exibir um filme para estudantes para melhorar seu desempenho.

O filme Rainha de Katwe, uma produção da Disney, conta a história de uma garota pobre de Uganda que tem a chance de mudar de vida ao se tornar jogadora de xadrez, mas enfrenta muitas dificuldades. É baseado na história real de Phiona Mutesi, uma famosa enxadrista ugandense que ganhou vários torneios internacionais, e repete o tempo todo uma mensagem: “Você pode ser maior do que você é hoje”.

Na preparação para a prova de matemática do equivalente ao Enem aqui o Brasil, 700 estudantes de 22 escolas da cidade de Kampala foram a um cinema local para ver o filme. E um outro grupo, também de 700 alunos, assitiu "O lar das crianças peculiares", uma aventura sobre meninos e meninas dotados de poderes especiais.

A pesquisadora esperava que a história da enxadrista, uma menina pobre como quase todos os estudantes, servisse de inspiração para um desempenho melhor. E foi o que aconteceu. Uma semana depois, eles fizeram a prova de matemática. Entre aqueles que viram o filme inspirador, 8 em cada 10 foram aprovados. E entre aqueles que viram o outro filme apenas 3 em cada 10 foram aprovados.

O sucesso foi ainda maior entre as estudantes no caso de Rainha de Katwe. Elas melhoraram seu desempenho em 44%, eliminando o gap que havia para as notas dos meninos. Embora se trate de uma pesquisa feita por uma estudante da graduação, o trabalho chamou atenção e este ano foi destacado pelo jornal The New York Times.

Os resultados remetem a outro experimento, realizado com 601 mulheres do estado de Oaxaca, no México, em um estudo dos economistas Travis J. Lybbert e Bruce Wydick. Todas faziam parte de um programa de microcrédito que oferece empréstimos para mulheres em regiões de pobreza extrema.

Ao participar do programa, 275 delas apenas receberam o empréstimo enquanto as demais 326, além do empréstimo, assistiram a um documentário, produzido pela Universidade de Sacramento, sobre quatro mulheres locais que, graças ao microcrédito, conseguiram empreender e deixar a pobreza. Elas também levaram para casa um imã de geladeira com palavras motivacionais.

O resultado? Depois de cinco semanas, as mulheres que conheceram os casos de sucesso venderam 17,7% a mais e aumentaram em 19,1% os lucros em comparação ao outro grupo. Os resultados foram publicados em 2017 pelo National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos.

Situações difíceis na vida, como a pobreza, quase sempre são acompanhadas de pessimismo, levando a um círculo vicioso no qual a pessoa não se considera capaz de participar de alguma atividade econômica e acaba fracassando, como previsto. Mas estimular a esperança nas pessoas, sugerem os dois estudos, ataca um componente psicológico da pobreza e pode ser um estímulo para superar mesmo as situações mais difíceis.

Fonte: G1 | Samy Dana

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