Você não lê os manuais dos produtos? Não está sozinho

Você costuma ler os manuais de instrução, os rótulos nos alimentos ou mesmo o contrato do plano de saúde? É claro que são importantes e você devia, mas se mesmo assim a sua resposta é não, ao menos não está sozinho. Quase ninguém lê.

A conclusão, publicada no Interacting with Computers Journal em 2016, levou um estudo de Alethea Blackler, Rafael Gomez, Vesna Popovic e Helen Thompson, quatro pesquisadores australianos, a conquistar na semana passada o Ig Nobel, prêmio concedido a trabalhos científicos engraçados, mas que levam a pensar.

A pesquisa aborda um ponto conhecido de muitos consumidores: a ansiedade diante da quantidade imensa de recursos que os novos produtos oferecem. Seja um computador ou um microondas, novos produtos são criados com cada vez mais opções e ajustes.

Fabricantes gastam tempo e dinheiro depois produzindo manuais na confiança de que darão aos consumidores as informações necessárias para uma boa experiência. Funcionaria se fossemos todos os consumidores interessados que eles imaginam, mas nem sempre é assim.

As informações podem estar lá, porém, já sugeriam alguns trabalhos anteriores, a maioria dos usuários dispensa a leitura. Em uma pesquisa em 2007, citada pelo estudo, 67% dos participantes revelaram que, em vez de ler o manual, tentavam explorar sozinho os equipamentos e, se necessário, pediam ajuda ao suporte.

Para saber a razão, os quatro pesquisadores fizeram um experimento com 170 consumidores. Eles deviam usar vários equipamentos, como microondas, câmera, controle remoto, etc, e também programas de computador.

A todos os participantes foi oferecido o manual para aprender sobre os produtos. Mesmo assim apenas um em cada quatro deles procurou as informações. Os demais preferiram usar a intuição, experimentando os aparelhos e tentando fazê-los funcionar.

Muitos tinham alta escolaridade e outros eram muito jovens. Foram os dois grupos que menos usaram os manuais. Mas ambos, aponta o estudo, também têm mais familiaridade com a tecnologia, sabendo operar apenas os recursos pretendidos.

As pessoas não deixam de comprar aparelhos – ou softwares – complicados e cheios de recursos, mas os resultados apontam que muitas destas características ficam sem uso porque são difíceis de entender. Diante da quantidade de informações, sem tempo para aprender sobre o manual, as pessoas se sentem ansiosas e muitas vezes atrapalhadas.

Para Alathea Blacker, que comandou o estudo, os resultados impõem um desafio à maneira como os produtos hoje são desenvolvidos e apresentados. Ela não defende que os designers não incluam novas características e nem que não sejam ressaltadas, mas um equilíbrio.

A pesquisadora é autora de vários trabalhos sobre como consumidores experimentam novos produtos. Ela foi a encarregada de receber, na Universidade de Harvard, o prêmio do Ig Nobel, uma nota de 1 trilhão de dólares… do Zimbábue, moeda já fora de circulação.

Fonte: G1 | Samy Dana

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