No escurinho do restaurante: comer na penumbra faz você ingerir mais calorias

O casal saiu para jantar. Era uma noite romântica e o local, um bistrô charmoso e pouco iluminado. Eles escolheram um lugar em um canto discreto, pediram a bebida e então examinaram o cardápio. A luz ambiente terá alguma influência na decisão de pedir ou não pratos mais calóricos?

A pergunta serviu como ponto de partida para quatro pesquisadores - Dipayan Biswas, Courtney Szocs, Brian Wansink e Roger Chacko. Todos são autores de alguns estudos sobre como comemos e a influência do restaurante sobre nossas decisões de consumo.

O comércio costuma usar a iluminação para ressaltar produtos e vender mais. Já é documentado também como sons, odores e até a aparência do chão e a altura do teto influenciam os pedidos dos clientes dos restaurantes, mas até agora ninguém havia dado atenção à iluminação. Será que a luz no local influencia alguém a pedir um cheeseburger ou uma salada?

Para testar, os pesquisadores realizaram um primeiro experimento em quatro restaurantes da rede Hardee’s nos Estados Unidos, todos com a mesma decoração e ambiente. O estudo foi publicado em 2016 no prestigiado Journal of Marketing Research.

Quando 160 clientes chegavam para jantar naquela noite, sem saber que participavam de um estudo, Biswas, Szocs, Wansink e Chacko manipularam as luzes. Em dois locais, a iluminação foi diminuída, deixando os visitantes na penumbra. Já nos outros dois, foi aumentada.

Os clientes fizeram seus pedidos, jantaram e então, a pedido dos garçons, responderam quais pratos haviam escolhido. Também deram notas - de 1 a 7 - sobre o quanto se sentiam alertas comendo naquele ambiente.

Nos restaurantes mais iluminados, 52% dos visitantes preferiram refeições mais saudáveis, como peixe ou frango grelhado com salada, enquanto 48% pediram comidas menos saudáveis, como bife com fritas, costela de porco ou sobremesa. A maioria também atribuiu uma nota média de 5,2 para o quanto estava alerta no momento.

Mas nos restaurantes na penumbra ocorreu o contrário. Os pratos mais calóricos ocuparam 65% dos pedidos contra 35% mais saudáveis. Os clientes também se disseram menos alertas, atribuindo uma nota 4 a seu estado de momento.

O próximo passo foi replicar o estudo em laboratório. Desta vez 140 estudantes, divididos em quatro grupos, jantaram nas mesmas condições dos clientes dos restaurantes, só que em ambientes ainda mais iluminados ou mais na penumbra. As opções de comida também mudaram e eles tinham de escolher entre biscoitos recheados simples ou cobertos de chocolate.

No cenário mais iluminado, a preferência pelo biscoito menos calórico foi de 68%. Porém nos mais escuros 51% dos participantes preferiram o biscoito com cobertura. E enquanto a nota para o quanto se sentiam bem foi de 5,6 no ambiente mais iluminado, no mais escuro foi de 5,4.

Para os pesquisadores, os dois experimentos mostram que em ambientes pouco iluminados ficamos menos atentos ao que comemos e, assim, mais dispostos a abusar dos pratos menos saudáveis.

Nos restaurantes, a iluminação geralmente é usada para criar um ambiente aconchegante e valorizar a experiência dos clientes. Os resultados sugerem que locais que servem pratos ou snacks mais saudáveis têm a ganhar se aumentarem a intensidade das lâmpadas, permitindo que os clientes vejam o que estão comendo. Eles darão mais atenção à comida.

Mas comer no escuro, no seu bistrô favorito, tem lá algumas vantagens. Os pratos podem ser mais calóricos, porém no estudo os clientes comeram menos e mais devagar do que aqueles que fizeram as refeições em locais mais iluminados. Também pareceram desfrutar mais da comida.

Você pode fazer o teste na sua próxima refeição. Comer no escuro aumentará a experiência. Mas se estiver de dieta, o melhor é deixar as luzes acesas.

Fonte: G1 | Samy Dana

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