A teoria econômica que deu origem à ideia de uma moeda comum

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, 45 países se reuniram na Conferência de Bretton Woods. Nesse encontro, foi definido que o dólar americano seria a principal moeda das transações internacionais e estipulado um sistema de câmbio fixo atrelado ao dólar. Além disso, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial foram criados com o intuito de dar suporte ao sistema monetário recém instalado.

Atualmente, existem dois modelos mais populares para o câmbio: o fixo e o flutuante. O câmbio fixo é estipulado pelo Currency Board, que define uma taxa de câmbio imutável com o tempo. Já o flutuante tem o seu valor estipulado pela dinâmica de mercado, sendo este afetado por qualquer manifestação política ou econômica.

Em 1961, Robert Mundell publicou o artigo A Theory of Optimum Currency Areas, no qual ele discute qual seria o melhor sistema de câmbio, fixo ou flutuante, para corrigir um eventual desequilíbrio na balança de pagamentos de um determinado país. Essa teoria serviu de base para os conceitos de criação de uma moeda comum, como o Euro, e lhe rendeu o prêmio Nobel de Economia em 1999.

Em seu artigo, o economista também explica como alcançar a chamada área monetária ótima, levando em consideração as políticas de estabilização e o custo da existência dessas áreas. Assim, uma área monetária ótima é definida como uma região geográfica em que a eficiência econômica é maximizada por uma moeda comum. Afinal, qual seria o melhor sistema de câmbio?

Para iniciar a análise, começamos com dois países de moedas distintas: Brasil e Argentina, supondo que ambos estejam com a balança de pagamentos em equilíbrio, em situação de pleno emprego, salários nominais e preços constantes. Este cenário, contudo, é interrompido por uma transferência de demanda dos produtos argentinos para produtos brasileiros.

O impacto imediato para a Argentina nessa situação é um déficit na balança de pagamentos, pois os seus custos não diminuíram na mesma proporção que a produção, gerando desemprego. Entretanto, para o Brasil, ocorre maior entrada de capital, maior procura pelos produtos e uma consequente pressão inflacionária.

Nesta nova conjuntura, se o governo brasileiro não conter o aumento dos preços, a Argentina é aliviada em ajustar a sua política econômica. Entretanto, se o Brasil conceder mais crédito e aumentar a taxa de juros para conter a inflação, a Argentina é prejudicada ao carregar o fardo de uma alteração em sua política econômica.

Por isso, para Mundell, a política monetária correta a ser adotada para corrigir o desemprego na zona deficitária é aumentar os preços do país superavitário, invertendo os termos de troca. Neste caso, o câmbio é capaz de corrigir esse desequilíbrio, uma vez que desvalorizar o peso argentino em relação ao real, reduz o déficit da balança de pagamentos, o desemprego na Argentina e o superávit e inflação no Brasil.

Como segunda parte da análise, consideramos A e B como duas regiões comuns a dois países distintos, Estados Unidos e Canadá, cada um com sua moeda nacional. A região A é o maior produtor do bem 1 e a região B do bem 2. Consideramos um desequilíbrio na oferta e demanda, no qual ocorre aumento excessivo na produtividade do bem 2, gerando excesso de oferta, e aumento da demanda do bem 1. Utilizando o mesmo raciocínio do exemplo anterior, ocorre pressão inflacionária em A e desemprego em B.

Contudo, neste caso, o câmbio não corrigiria o problema, pois se os dois governos diminuíssem a oferta de moeda, a queda da inflação ocorreria às custas de agravamento do desemprego em B. Se a oferta de moeda aumentasse, o desemprego em B seria amenizado às custas de uma alta inflação em A. Portanto, a questão principal não é saber qual dos dois sistemas de câmbio é mais eficaz, mas sim em qual circunstância um deles se faz mais adequado.

Nos exemplos anteriores, analisamos regiões e países com sistema de câmbio flutuante. Como terceira parte do estudo, temos o regime de câmbio fixo entre duas regiões, A e B. Seguindo o mesmo desequilíbrio do exemplo anterior, mas considerando a hipótese de mobilidade de fator de produção (neste caso, refere-se apenas à mão-de-obra e capital) e flexibilidade salarial, o cenário é alterado.

Como a região A está com excesso de demanda, há aumento da oferta de trabalho. Consequentemente, ocorre aumento dos salários e mobilidade de trabalhadores de B para A, o que impacta no equilíbrio novamente da Balança de Pagamentos. Portanto, para Mundell, a mobilidade dos fatores de produção é um critério decisivo para o estabelecimento de uma Área Monetária Ótima.

Após a publicação do artigo de Robert Mundell, outros economistas iniciaram estudos sobre essa teoria e encontraram outros critérios que também estabelecem uma área monetária ótima. O elevado grau de abertura econômica, diversificação da atividade econômica e federalismo fiscal (baixa restrição de circulação de capitais) são fatores fundamentais para a existência de uma zona de mesmo câmbio que não seja tão vulnerável a oscilações de oferta e demanda do mercado.

Assim, a União Europeia é um exemplo de uma integração de países que dividem a mesma moeda. A questão é se a Zona do Euro pode ser classificada como uma área monetária ótima e se os países integrantes se beneficiam com a taxa de câmbio fixada.

Considerando o comércio interno da Europa, de acordo com o livro Economia Internacional, a maioria dos membros da UE exportam de 10% a 20% de sua produção para os outros membros. Já para os Estados Unidos, é exportado apenas 2% da produção europeia.

Portanto, a taxa de câmbio dólar/euro fixa é uma boa estratégia para os membros da Zona do Euro, mas está longe de ser uma integração econômica suficiente a fim de chamá-la de área monetária ótima.

Em relação a mobilidade dos fatores de produção, Barry Eichengreen, professor da University of California, em Berkeley, realizou um estudo apontando que as diferenças nas taxas de desemprego regionais são mais baixas e menos perpetuadas nos Estados Unidos do que as diferenças nas mesmas taxas nacionais na União Europeia.

Na Europa, a mobilidade é limitada principalmente por diferenças de línguas e questões culturais, e não por fronteiras físicas. Outro ponto importante é a similaridade da atividade econômica dos países integrantes da Zona do Euro, a qual torna o bloco mais vulnerável se algum desequilíbrio de oferta e demanda ocorrer em um setor da economia.

Além disso, o federalismo fiscal entre os membros da UE é extremamente limitado, impossibilitando o repasse rápido de recursos de países com economias saudáveis para aqueles que estão em recessão.

 

Portanto, um ou mais países estabelecem uma área monetária ótima quando entre eles há federalismo fiscal, abertura econômica e intenso grau de integração econômica. Além disso, após um desequilíbrio de mercado, deve existir disponibilidade de pelo menos um mecanismo de ajuste: flexibilidade de preços e salários e mobilidade dos fatores de produção. Por isso, após as análises, mesmo que a União Europeia não seja considerada uma área monetária ótima, o sistema de câmbio fixo é benéfico para estabilidade econômica do bloco.

Fonte: G1 | Samy Dana (com colaboração de Leticcia Hadler,)

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