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Como Paul Krugman desvendou o comércio internacional

Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times, recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 2008, em função de suas contribuições para os estudos da economia internacional e da nova geografia da atividade econômica.

Assim, numa abordagem tradicional, o comércio internacional se baseia nas diferenças no acesso tecnológico, na oferta de mão de obra e no capital. Com isso, tal concepção explicaria o porquê de alguns países exportarem produtos agrícolas enquanto outros exportam bens-industriais. Mas, percebe-se que um mesmo país pode importar e exportar um mesmo produto, fato esse que desconstrói a teoria de que estas diferenças ditariam o comércio internacional.

A fim de entender os novos padrões do comércio internacional, o economista identificou que o tamanho de um mercado pode proporcionar vantagens a um país em relação ao outro em suas relações comerciais. Apesar disso, o estudo explicado no paper Scale Economies, Product Differentiation and Pattern of Trade (1980) traz novas premissas que explicariam o comércio internacional. O economista associa a economia de escala, presente em muitos mercados, a comportamentos de mercado não competitivos, e, como uma lógica monopolista impacta no comércio internacional.

Uma vez neste cenário, Krugman incorpora ao seu modelo os seguintes elementos: competição imperfeita, economia de escala e a possibilidade de diferenciação de produtos.

Assim, a concorrência imperfeita acontece quando os consumidores não são os que definem o preço do produto por meio da lei da oferta e da procura. Em seu caso mais extremo, há apenas um ofertante para uma determinada mercadoria e, assim, é chamado de mercado monopolista. Contudo, o monopolista necessita, ainda que em suas devidas proporções, analisar o seu poder sobre o preço junto à necessidade dos consumidores de adquirirem o que ele produz. Para isso, deve se atentar à quantidade produzida e a quantidade inserida no mercado para o consumo.

Uma economia de escala, por sua vez, é aquela que uma empresa organiza seus custos que variam conjunta e exclusivamente com a sua produção. A partir disso, é possível notar dois principais tipos da economia de escala: (1) Interna, na qual os custos diminuem à medida que a produção aumenta devido a aspectos internos da firma; e (2) Externa, na qual os custos diminuem ao passo que a produção aumenta em razão dos preços menores de insumos quando comprados em grandes quantidades.

Krugman acrescenta que existem outros fatores que influenciam para criação de uma economia de escala. Ele argumenta que, em um país, a posição geográfica das empresas está associada com a oposição da economia de escala com o transporte dos produtos. Dessa forma, empresas localizadas em áreas mais povoadas, onde as distâncias para transporte são mais amenas, têm maior vantagem, pois, ao mesmo tempo que diminuem seus custos, elas oferecem preços mais baixos para seus consumidores.

Além disso, é necessário para o bom funcionamento da economia de escala uma alta demanda e a especialização de produção de uma determinada mercadoria. Em um cenário mundial, cada país ou região teria a sua especialização e ocorreria trocas entre eles, configurando um comércio Inter Industrial. Logo, para uma economia fechada é impossível a existência de uma economia de escala, uma vez que não é factível a especialização em todos os setores.

Assim, com o avanço do comércio e da globalização no século XX, torna-se possível uma especialização profunda de uma pequena variedade de bens similares, mas diferenciados a custos médios baixos, fazendo com que as variedades de bens disponíveis aumentassem por meio as importações. Isto configura, de acordo com Krugman, um comércio Intra Industrial.

Dessa forma, o comércio Intra Industrial é realizado entre países estruturalmente parecidos. Assim, os países que comercializam o mesmo produto para os mesmos consumidores não possuem, então, um grande impacto em redistribuição de renda.

Krugman argumenta que a partir do século XX, com a abertura do comércio internacional, países passaram a estabelecer preços menores para os seus produtos a serem exportados. Logo, o país exportador alcança uma vantagem em relação ao país em que seu produto será vendido, pois o último comercializa a mercadoria a um preço maior. O ato de fixar para baixo o preço a fim de obter uma concorrência desleal com um outro ofertante é chamado de Dumping. O reconhecimento dessa prática, assim como outras imperfeições no comércio internacional, fez com que Krugman pudesse compreender de forma mais precisa as relações comerciais do mundo contemporâneo.

O economista revolucionou o estudo do comércio internacional e substituiu o pensamento tradicional que vigorava na década de 1970. Com os avanços da integração geográfica e econômica, Krugman conclui que o reconhecimento da competição imperfeita, a economia de escala e a diferenciabilidade dos produtos são os principais elementos que ditam o comércio internacional. Inclusive, ao examinar o comércio por uma ótica realista, ele proporcionou ao mundo uma nova forma de interpretar os efeitos da globalização e do livre-comércio.

Fonte: G1 | Samy Dana (em colaboração com Nathan Haim Souccar)

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