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O nascimento da econometria e sua contribuição para a sociedade

Lousas rabiscadas de equações matemáticas, barulhos de calculadoras e cheiro de giz permeiam o ambiente. Para quem não frequenta as aulas de econometria, tal cenário pode parecer uma bolha matemática muito distante da realidade. Engana-se quem pensa assim. Um dos maiores interesses de um economista é ver se o que foi proposto pela teoria se aplica na realidade. Isso, porém, sempre representou um dos maiores desafios da Economia. Diferentemente das ciências naturais, o economista raramente consegue realizar experimentos controlados, por isso os dados coletados em Economia são resultados de muitas relações de interdependência, o que torna difícil inferir relações de causa e consequência. Para tentar resolver este problema foi desenvolvida a Econometria: braço da Economia responsável por, justamente, estimar e testar as relações apresentadas pelos modelos teóricos usando dados da realidade.

Até a metade do século passado faltava aos pesquisadores um sistema comum para formular, analisar e resolver os problemas de teste e estimação. Por causa disso, grandes economistas, como John Keynes, rejeitavam o uso dos métodos adotados, pois acreditava que isso limitava muito a extensão da teoria para o mundo real. Nesse cenário limitado, surge o trabalho de Trygve Haavelmo. O economista foi responsável por introduzir de forma consistente o uso dos métodos probabilísticos no campo da Econometria e, por consequência, por uma grande evolução na Ciência Econômica.

Haavelmo nasceu em Oslo, na Noruega, em 1911. Graduou-se em economia pela Universidade de Oslo no ano de 1933. Entrou no Instituto de Economia como assistente de Ragnar Frisch, grande econometrista da época e laureado com o Nobel em Ciências Econômicas anos depois. O economista também estudou estatística no University College London. Em 1941, recebeu o título de Ph.D. pelo trabalho “The Probability Approach in Econometrics” (Abordagem Probabilística em Econometria, tradução livre), sendo essa a base que, seguida por outros de seus trabalhos, serviu para mostrar de forma convincente que o uso de probabilidade na formulação e teste das teorias econômicas poderia resolver grande parte dos problemas enfrentados pela Econometria da época.

O uso da abordagem probabilística é tão importante porque permite a aplicação de métodos de inferência capazes de apontar conclusões confiáveis sobre as relações previstas pela teoria. De maneira mais simples, a abordagem probabilística possibilita que, com dados da realidade, o pesquisador diga algo confiável sobre o todo, algo previsto pela teoria e confirmado pelas evidências práticas. Por exemplo, pode-se pegar os dados sobre programas do governo e entender se eles funcionam de acordo com o que foi planejado, desse modo há possibilidade de aperfeiçoamento do programa. 

Ao mostrar a necessidade do uso da teoria de probabilidade, ele também provou a sensatez por trás do novo método. Afinal, acreditar que é possível prever tudo sem incorrer em erros no cenário econômico complexo enfrentado pelos economistas seria absurdo. O ponto forte da probabilidade é o fato de ela ter erros e imprecisões, mas ser viável medir os erros e trabalhar para minimizar as imprecisões.

O norueguês também contribui para a análise de problemas com interdependência nas relações econômicas. Basicamente, o problema é que um acontecimento econômico, como aumento de preço da gasolina, impacta muitos outros preços de várias formas. A gasolina mais cara aumenta o custo da entrega de pizza, mas a pizza ficou mais cara também porque a entrega da farinha ficou mais custosa. Por isso, é difícil entender o resultado pontual do preço da gasolina. Haavelmo explicou que se fosse utilizado um conjunto de relações autônomas, algo como relações entre custo da farinha e da pizza, custo da entrega e da pizza, e assim por diante, seriam explicadas de uma forma melhor.

É do interesse do governo e das instituições que atuam na economia entender a inflação - como os preços vão aumentar -, a fim de fazer um planejamento mais adequado para o futuro. Imagine o seguinte exemplo: uma indústria está interessada em comprar uma máquina que custa R$ 1 milhão. Para isso, ela precisa saber qual será o melhor momento para efetuar a compra da máquina. Se em um ano a máquina custar R$ 1,1 milhão (inflação de 10%) e em dois anos a mesma máquina custar R$ 1,5 milhão (inflação de 50%), a empresa optará por efetuar a compra em um ano, pois pagará por um preço menor se tiver caixa. E a empresa só conseguirá tomar a melhor decisão se conseguir projetar bem a inflação. Antes de Haavelmo, isso não seria possível, já que os economistas não acreditavam na possibilidade de prever esses dados, afinal não existia um processo preciso e bem estruturado. Depois de seus trabalhos, tais previsões são realizadas com grande frequência. São elas que permitem um melhor processo de decisão pelas empresas e pelo governo.

Graças a Trygve Haavelmo, o giz que rabisca as equações na lousa das aulas de econometria se tornou capaz de desenhar soluções para problemas reais da sociedade.

Fonte: G1 | Samy Dana | Otávio Luiz Tecchio

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