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Mercado financeiro não está ‘calado' sobre a Previdência

Os ativos financeiros negociados no mercado são termômetro para medir várias coisas. Como anda a economia, se vai crescer ou não, se há confiança na condução do país, como estão os fundamentos (contas públicas, inflação) e, principalmente, quais as perspectivas para o curto e médio prazos. No caso do Brasil, um país emergente com baixa previsibilidade, o “preço” dos ativos é mais volátil, mas nem por isso deixa de sinalizar com clareza o que veem e o que esperam os investidores que negociam ativos domésticos.

Olhando para dólar e bolsa de valores, tudo parece relativamente calmo. A discussão da reforma da Previdência está no topo da lista das preocupações porque a aprovação dela, mesmo que seja um projeto mais enxuto, significa que as contas públicas não vão explodir ali na frente, daqui a dois anos. O risco país, uma medida que funciona como uma apólice de seguro para investidores estrangeiros, também está comportado. Nem parece que há tantos riscos à frente, como as eleições e o andar da previdência. 

Nem tudo são flores. O recado mais duro que o mercado financeiro está dando ao governo e ao Congresso Nacional está na curva de juros futuros, um “desenho” com a trajetória das taxas que estão sendo negociadas com títulos públicos com vencimentos mais longos. Os papéis do Tesouro Nacional que vencem a partir de 2019 estão sendo negociados com taxas acima de 10% ao ano, bem acima dos 7,5% da Selic determinada pelo Banco Central. Ora, se o BC tem sinalizado que vai manter os juros baixos por mais tempo, por que as taxas estão indo lá para cima?

 “Eu tenho duas explicações para isto. A primeira é que o mercado não colocou a reforma da previdência no cenário. Ainda há muita dúvida se ela vai ser aprovada mesmo. Se for aprovada, as taxas podem se desmontar completamente, mas por enquanto, ela fica lá, acima dos 10%. O outro ponto é que não houve um movimento dos investidores de saírem da renda fixa para renda variável. Com juro a 7%, não há rentabilidade para os grandes fundos de investimento, especialmente os fundos de pensão. Para ter performance e ganhar dinheiro, eles terão que migrar para a renda variável. Eles não se mexeram ainda por conta da indefinição política”, disse ao Blog o analista Raphael Figueredo, sócio da Eleven Financial.

Raphael fez uma comparação com o que estava acontecendo com os juros futuros quando o governo de Dilma Rousseff baixou a taxa básica para 7,25%. Apesar de o mercado saber que aquele movimento era insustentável, os juros futuros estavam sendo negociados em torno de 9,2% ao ano. A diferença parece pequena, mas não é e não pode ser desprezada.

A gente se acostuma a olhar para aqueles ativos mais “esquentadinhos” como o dólar e a bolsa de valores. Estes dois devem se manter mais quietos, ou menos agitados, porque estão mais ligados ao que está acontecendo no exterior e ainda não deram bola para a briga pela previdência. As próximas duas semanas serão mais decisivas já que, se o governo conseguir garantir votos, mesmo que com uma margem alta de risco, a votação da reforma na Câmara pode acontecer.

De qualquer forma, o mercado não está calado. As taxas de juros dos títulos com vencimentos mais longos não deixam dúvidas de que os investidores vão cobrar mais caro para financiar o Brasil se nada da previdência passar pelo parlamento. Os benefícios do juro mais baixo, que ajudam no crédito mas também no custo da dívida pública, podem durar menos tempo do que se espera – e do que se precisa para deixar a pior crise econômica da história para trás.

Fonte: G1 | Thais Herédia

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