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Juros próximos ao recorde de baixa

Nesta semana os juros no Brasil vão chegar muito perto do recorde de baixa que tivemos em 2012. Na penúltima reunião do Banco Central de 2017, marcada para a próxima quarta-feira, a Selic deve cair para 7,5%, muito perto dos 7,25% alcançados há cinco anos. Os números são próximos e parecidos, mas as condições econômicas dos dois períodos são absolutamente diferentes, a começar pela dinâmica da inflação.

As expectativas para o IPCA de 2017 estão correndo próximas aos 3% e o movimento com a taxa de juros que está sendo promovido pelo BC agora já faz parte da estratégia para 2018, já que há defasagem no efeito da política monetária. Em dezembro teremos o último encontro do Comitê de Política Monetária do ano e a Selic vai cair para 7%, novo recorde, e não deve parar por aí. Há gente apostando que os juros cheguem a inéditos 6,5% no primeiro trimestre do ano que vem.

Em 2012, quando BC empolgou com a caneta da força política, o IPCA rodava próximo a 5,5%, portanto acima da meta de inflação, e as expectativas não cediam, ao contrário, apontavam alta do índice nos meses à frente. A regra básica da política monetária de sucesso, qual seja, manter as expectativas de inflação firmes na convicção de que ela será controlada, foi desrespeitada sem pudor.  De duas, uma: ou porque havia alguma chance da regra estar errada, ou porque a ideologia do governo do PT venceu.

O que sabemos é que deu tudo errado. O IPCA fechou acima da meta em 2012, 2013, 2014, 2015 e 2016, comprovando que não se deve brincar quando o tema é inflação, ainda mais num país com histórico como o nosso. Claro que o descontrole do IPCA se deu também pela estapafúrdia ideia (mais uma) de controlar preços da economia à força, como o governo de Dilma Rousseff fez com a energia, os combustíveis, com o crédito e também o dólar. Mas a irresponsabilidade cresceu quando BC foi conivente com as escolhas da petista.

Em junho de 2016, quando deixou a presidência do BC, Alexandre Tombini levou com ele a falta de credibilidade na condução da política monetária. Ilan Goldfajn, o atual, restaurou a confiança na responsabilidade das decisões sobre os juros e pôde atravessar o último período de choques provocados pelo governo petista, conduzindo sua estratégia para acomodar o IPCA na trajetória atual de queda estrutural do IPCA. Ilan contou ainda com dois outros aspectos importantes: o ponto agudo da recessão e a recuperação da economia internacional.

Estes fatores, além da safra recorde de grãos que derrubou os preços dos alimentos, são conjunturais, ou seja, não serão permanentes, mas terão sido essenciais para tirar o Brasil da rota de risco de novos picos inflacionários. Agora que a economia volta a crescer, mesmo que lentamente e ainda frágil, a atenção do BC já começa a se voltar para os reflexos desta retomada no processo inflacionário. Como temos muita capacidade ociosa na indústria e desemprego alto, deve levar mais tempo para aparecerem focos de pressão, mas não diminui a atenção.

A recuperação da economia internacional, somada ao excesso de capital pelo mundo, tem mantido dólar relativamente comportado no patamar de baixo e, ao mesmo tempo, elevado a demanda por importações – que ajudam o Brasil. Estados Unidos e Europa, especialmente Reino Unido, têm registrado crescimento mais forte do PIB, quadro que será confirmado esta semana com a divulgação de dados. Ainda que o governo de Donald Trump gere muita insegurança sobre o futuro, nada foi capaz de reverter o rumo do crescimento mais forte e generalizado do mundo desenvolvido. China, ator relevante neste cenário, parece estar querendo pisar no acelerador novamente, elevando os efeitos benéficos deste ambiente para o Brasil.

São com estes ingredientes que os diretores do BC vão misturar a receita para o novo patamar da taxa de juros. Próxima a 7%, a Selic ainda está longe das taxas cobradas dos consumidores e das empresas pelos bancos, mas alguma coisa já começou a mudar nos cálculos para os novos financiamentos e crédito concedidos. Redundante mas nunca demais dizer que continuamos ameaçados pela crise política e seus desdobramentos.

Na quarta-feira, dia do Copom, a denúncia contra Michel Temer será votada no Congresso. Difícil haver desfecho diferente do que mais uma salvação do mandato do peemedebista. O que vai piorando, e muito, é o custo para manutenção dele no poder a mais de um do fim do mandato. A dúvida é prever até quando o atual descolamento da economia e da política vai se manter e promover melhora na qualidade de vida dos brasileiros que mais sofreram com a crise recente.

Fonte: G1 | Thais Herédia

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