Publicidade

Nobel de Economia jogou luz na forma como pensamos em dinheiro

Não pensamos (e nem agimos) conforme preveem os livros e manuais de economia – este é o ponto principal do trabalho do Richard Thaler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia deste ano. A “racionalidade limitada” – ou, de forma mais direta, nossa irracionalidade – é a base da produção de Thaler, que soube casar os universos da economia e da psicologia como poucos.

Dentro deste universo da irracionalidade do ser humano, Thaler desenvolveu a teoria da “Contabilidade Mental”. Dada a dificuldade de organizarmos e planejarmos nossas vidas financeiras, simplificamos o processo de tomada de decisão sobre o nosso dinheiro e criamos “contas correntes” diferentes em nossas cabeças. Com isso, simplificamos demais as decisões de compras, por não olharmos para o todo.

Thaler ilustra a questão com uma anedota: “O problema pode ser ‘O Sr. S. admira uma malha de cashmere de US$ 125 em uma loja de departamento, mas decide não comprá-la, por achar que se trata de um preço extravagante. Semanas depois, ele ganha a mesma malha de presente de sua esposa, como presente de aniversário, e fica muito feliz. O Sr. e a Sra. S. possuem apenas contas conjuntas’”. Conforme o economista explica no estudo “Contabilidade Mental e Escolha do Consumidor”, a atitude do Sr. S. viola princípios econômicos básicos: tendemos a dar presentes itens que o presenteado não compraria a si mesmo, e ainda assim eles tendem a aprovar a estratégia.

Da mesma forma, compramos itens que não vamos usar depois, simplesmente pelo prazer de fazer “um bom negócio”. Fazemos pequenas extravagâncias quando recebemos um dinheiro extra que não faríamos se tivéssemos um aumento salarial do mesmo valor. Separamos o dinheiro que ganhamos de um investimento bem-feito da nossa renda familiar, sem percebermos que se trata de apenas um “único dinheiro”. Temos dinheiro guardado para um objetivo específico e, ainda assim, tomamos um empréstimo ou recorremos ao cheque especial para pagar por outras despesas.

Todos esses comportamentos podem ser explicados dentro da teoria de Contabilidade Mental de Thaler. Se fôssemos seres absolutamente racionais, como preveem os livros de economia, estas situações não existiriam. O casal que vem guardando dinheiro para a faculdade do filho e começa a passar por dificuldades financeiras deveria pegar a poupança acumulada para o filho para lidar com os problemas de hoje e evitar pagar juros (altíssimos) sobre as suas dívidas. No entanto, para a maioria dos humanos, esta é uma atitude dificílima de tomar. Com a Contabilidade Mental regulando a forma como pensamos sobre dinheiro, são enormes as implicações na forma como gastamos, poupamos e investimos.

Tomamos, portanto, decisões irracionais com nosso dinheiro, e não o tratamos como algo único. Criamos várias caixinhas mentais, uma para cada fim: para poupar, para investimentos agressivos, para investimentos conservadores, para pagar o aluguel, e assim por diante. Com esta “organização” feita, são poucos os que param para montar uma planilha e projetar seus gastos diários e aqueles futuros, que logo devem chegar.

Se você não é desses, não precisa sofrer – você não está sozinho. Ao ser questionado pelo jornal The New York Times como pretendia gastar o dinheiro do prêmio (cerca de US$ 1,1 milhão), ele respondeu: “da forma mais irracional possível”.

Fonte: G1 | Samy Dana

Publicidade