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‘The Chicago Boy’: Milton Friedman e suas contribuições para a economia

O que você faz quando ganha um dinheiro extra? Milton Friedman, um dos nomes mais influentes da economia do século XX, respondeu essa questão. Ele foi conhecido por ser um dos grandes nomes da chamada “Escola de Chicago”, a qual ficou famosa por se opor aos Keynesianos, nome dado aos discípulos do notório economista britânico John Keynes, e por defender uma menor intervenção estatal na economia. Friedman realizou importantes estudos na micro e macroeconomia e levou o prêmio Nobel de Economia em 1976.

Na “Teoria da Função do Consumo”, o economista ofereceu uma visão inovadora para a relação entre renda e consumo. Até então se defendia que qualquer aumento no rendimento dos indivíduos resultaria em uma alta imediata do consumo e, portanto, da demanda como um todo.

Friedman, no entanto, tinha uma visão diferente. Segundo ele, o rendimento é resultado de dois componentes: um permanente, como o salário ou renda de um imóvel, que o indivíduo espera receber periodicamente, e outro temporário, relacionado a ganhos esporádicos, como bônus. Dessa forma, entendia que o nível de consumo das pessoas se baseava apenas na parcela da renda que elas consideram como estável ou de longo prazo, e assim elas gastariam um valor constante de sua renda permanente e poupariam a maior parte de sua renda transitória.

Para exemplificar, consideremos um funcionário que recebe R$5.000 por mês. Seu consumo (suponhamos que seja de R$4.000) seria baseado nesse valor, pois ele espera continuar recebendo essa remuneração periodicamente. Caso esse trabalhador receba, em certo período, R$200.000 em uma aplicação financeira, ele não consumiria intensamente nesse período. Essa remuneração temporária seria diluída no longo prazo e o trabalhador passaria a gastar, por exemplo, R$4.200 por mês de agora em diante. Assim, uma alta remuneração comparada ao salário do indivíduo resultaria em uma pequena variação nos seus gastos. Dessa forma, é mantido um padrão de vida bastante constante, mesmo que os rendimentos variem consideravelmente em certos períodos. Essa colocação foi de extrema importância para a época, pois afrouxou a relação entre consumo e renda e permitiu aos economistas tomarem decisões mais precisas nesse sentido.

Em relação à macroeconomia, Friedman, no início dos anos 60, escreveu de modo dar ênfase à oferta monetária na economia; exatamente o oposto de seus pares na época, que abordavam a quantidade da moeda pelo lado da demanda. As ideias macroeconômicas desta época eram dominadas por economistas keynesianos. Estes davam muito mais importância às políticas fiscais, como ajustes de taxas de imposto e controle de gastos, que às políticas monetárias como mecanismos de controle do desempenho da economia. Friedman foi contra essa tendência. Para ele, a oferta monetária era o principal motor do crescimento econômico pois, à medida que ela aumentava, as pessoas exigiam mais, as fábricas produziam mais e, portanto, novos empregos eram criados. Relatava também que o desemprego em alguma medida era algo natural em uma economia, e as políticas monetárias deveriam ser manuseada visando buscar uma situação de baixo desemprego e inflação aceitável.

Em suma, os chamados monetaristas, grupo encabeçado por Friedman, buscam regular a economia através da política monetária e não fiscal, como os keynesianos. Isso ocorre da seguinte maneira: os governos, quando querem aumentar a oferta monetária, imprimem mais dinheiro e compram títulos públicos em posse de bancos, de modo a injetar essa quantidade nova dinheiro no sistema financeiro. Estes bancos, por sua vez, acabam dispondo de mais dinheiro para emprestar e, portanto, estão dispostos a cobrar juros mais baixos, o que leva a um crescimento da economia, uma vez que as pessoas passam a ter acesso a quantias maiores de dinheiro para interagir no mercado. Quando o governo deseja reduzir a oferta monetária, ele faz a operação inversa: vende mais títulos públicos aos bancos e captando dinheiro. Ao aumentar essa venda de títulos, o governo força a sua desvalorização, subindo a taxa de juros básica e, por consequência, reduzindo a quantidade de dinheiro circulante na economia. Dessa forma, controla-se a tão temida inflação.

Foi exatamente isso que aconteceu no final de 2014. Em um cenário de instabilidade, a inflação começou a disparar na economia brasileira. Como forma de conter esse efeito, o governo subiu a taxa de juros, retendo uma maior quantidade de moeda e reduzindo a inflação. O uso das políticas monetárias se mostra essencial para conter cenários como esse. Contudo, os economistas alertam que seu uso deve ser gradual e cauteloso, pois um aquecimento muito intenso da economia pode levar a um forte aumento da inflação, ao mesmo tempo em que um desaquecimento intenso pode causar crises econômicas graves.

Assim, percebe-se que Friedman trouxe um novo entendimento à condução econômica, com um enfoque monetário que permanece até hoje, além de ter contribuído para um entendimento mais refinado na questão do consumo. Em suas ideias, encontra-se a sugestão aos poderes públicos de desistir totalmente de recorrer às políticas desenvolvimentistas como a de pleno emprego que vinham sendo utilizadas, dando mais espaço ao mercado e menos ao estado, algo que sempre defendeu em toda sua vida. Até hoje, Friedman é um símbolo do liberalismo econômico e suas ideias seguem sendo amplamente utilizadas nas políticas econômicas nacionais.

Fonte: G1 | Samy Dana | Augusto Felizali

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