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Grupos podem ser mais inteligentes do que indivíduos, exceto quando se comportam como manada

Saques, linchamentos e outros atos de violência: por diversos motivos, acredita-se que as multidões podem fazer barbáries quando reunidas. Provavelmente foram eventos do tipo que fizeram o filósofo Friedrich Nietzsche escrever: “A loucura é uma exceção nos indivíduos, mas a regra nos grupos.” O mesmo defendia o escritor francês Gustave Le Bon, que escreveu diversos tratados sobre a selvageria coletiva entre o final do século 19 e começo do século 20.

Essa impressão ficou para nossos tempos, especialmente quando usamos termos como “massa”. Porém, grupos podem ser mais inteligentes e assertivos do que a maior parte dos indivíduos – basta que as experiências individuais sejam somadas e que se produza uma média a partir delas. Quem relata este fenômeno é o jornalista James Surowiecki, em seu livro “A Sabedoria das Multidões”.

Para tanto, ele traz um exemplo muito próximo da cultura pop: o programa britânico Who Wants to Be a Millionaire?, onde um competidor responde a perguntas de múltipla escolha e, se acertar 15 questões consecutivas, ganha um milhão de dólares. Nele, o jogador pode pedir ajuda para uma pessoa inteligente de sua confiança ou para a plateia, que dá seu voto por computador. Enquanto os “especialistas” acertavam em 65% das vezes, o público presente escolhia a resposta certa em 91% dos casos.

O fenômeno foi testado academicamente em outras oportunidades, como em um experimento feito em 1906 pelo antropólogo Francis Galton, onde um grupo conseguiu adivinhar precisamente o peso de um boi depois de abatido. Ou mesmo aquele realizado no início da década de 1920 pelo sociólogo Hazel Knight, da Columbia University, onde seus alunos estimaram a temperatura média da sala e chegaram bem perto do resultado certo – tudo isso somando os palpites individuais e tirando a média.

Porém, para que grupos tomem boas decisões, é preciso que eles atendam a duas condições: diversidade de opinião e independência. Do contrário, eles podem chegar a decisões coletivas irracionais. É o que acontece, por exemplo, em bolhas do mercado de ações. Quando há comportamento de manada, não existe independência de pensamento – afinal, um investidor segue o outro sem um argumento bem fundamentado.

Para que o grupo tome boas decisões, é preciso que cada membro pense e aja da maneira mais independente possível – por mais paradoxal que isso soe. Boas decisões coletivas surgem a partir da contestação. Por isso, antes de comprar uma ação ou seguir alguma tendência, é preciso avaliar com sangue frio: você usa o comportamento coletivo com o benefício da sabedoria das multidões ou age de acordo com o efeito manada?

Fonte: G1 | Samy Dana

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