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Economia reage a despeito do desrespeito da política

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, diz que o governo está pronto para revisar para cima as expectativas oficiais para o crescimento da economia em 2017 e 2018. Meirelles quer seguir a onda dos economistas do setor privado que já reviram suas projeções para o PIB depois de conhecerem os resultados sobre a atividade nos últimos meses.

O mais recente é o IBC-Br, calculado pelo BC, que registrou alta de 0,41% em julho, sinalizando um bom começo de segundo semestre. Outros dados que já foram divulgados corroboram a recuperação, ainda lenta, porém mais forte do que se esperava. Mesmo a acomodação nos serviços e no comércio em julho estão longe de ser uma inflexão na trajetória positiva. A acomodação é esperada em tempos de virada de ciclos.

A composição de estímulos que vão garantir a continuidade da recuperação da atividade econômica, especialmente pelo consumo das famílias, é a mais saudável e consistente que temos desde o começo dos anos 2000, quando o país adotou o sistema de metas, liberou o câmbio e assumiu metas para superávit das contas públicas. Naquela época, entretanto, ainda tínhamos uma enorme fragilidade nas contas externas.  Acabamos nos beneficiando do boom provocado pela China e não faltaria dinheiro para financiar a retomada do Brasil.

Agora temos inflação baixa, juros em queda, retomada do emprego e queda dos gastos públicos – apesar do alto déficit. Apesar do tamanho do buraco nas contas, o rombo está ligado ao peso das despesas obrigatórias, basicamente salários do funcionalismo e previdência, o que não atua como incentivo econômico. A fragilidade externa sumiu com um saldo de US$ 380 bilhões em reservas internacionais, superávit recorde na balança comercial e nova enxurrada de capital estrangeiro rondando o Brasil.

A ociosidade do parque produtivo está alta, o que dá espaço para aumento do PIB sem que haja pressão inflacionária. Esta relação se dá porque, mesmo que a demanda por consumo aumente, não vai faltar oferta e os preços não sofrerão reajustes para regular as forças do mercado. O pior lado desta história é o baixíssimo investimento. Com máquinas paradas, para que renovar ou aumentar o galpão? Este é o ponto frágil da retomada de agora, sob a perspectiva exclusivamente econômica.

Voltando para o período entre 2009 e 2015, também foi o consumo das famílias que liderou o crescimento do PIB, mas o empurrão foi da pior qualidade possível. Ele veio da explosão dos gastos públicos, do quadro do funcionalismo público e, principalmente, dos incentivos fiscais que geraram uma conta bilionária para o Tesouro Nacional pagar em desonerações e isenções de impostos e subsídios para o crédito dos bancos públicos. No auge da experimentação irresponsável do governo petista, veio o controle de preços, especialmente os administrados como de energia e combustíveis.

O dólar também entrou na festa com a mega intervenção promovida pelo BC no mercado de câmbio para segurar a moeda americana. Nem a taxa de juros escapou, sofrendo uma redução forçada pelo Copom sem que a economia pudesse suportar juros menores sem gerar desequilíbrios. Estávamos num mercado com produtos mais baratos artificialmente, trabalhadores com renda superestimada pela inflação controlada à custa de controle dos preços, salários acima da produtividade. E uma explosão dos gastos públicos disfarçada pela contabilidade criativa e as pedaladas.

Passados os dois anos da recessão, o Brasil se depara com o estrago deixado pelo “tsunami petista”: destruição de empresas, empregos e planos de vida. A recuperação que está acontecendo agora é como se o país estivesse arregaçando as mangas para separar os destroços e recomeçar. Ainda há muitos obstáculos, inclusive econômicos, mas a dinâmica de uma economia como de um país deste tamanho não vai deixar de agir.

Os fundamentos para esta reconstrução estão mais sólidos do que tivemos no passado. As reformas que já foram aprovadas e o controle da inflação, devolvendo estabilidade à moeda, contribuíram para reforçar a fundação. O rombo fiscal segue como uma nuvem preta no céu ou um mar agitado ao lado e não poderá ser abandonado sob o risco de vir uma nova onda de um tsunami perigoso. A maior ameaça continua ali, à vista, mas a economia teima em deixa-la afastada num canto da casa: a crise política. Até quando será possível segurá-la, não sabemos, mas certamente teremos que encará-la com a chegada das eleições de 2018.

Enquanto ela não vem, o ministro Meirelles e os economistas podem fazer seus ajustes nas estimativas para o PIB. O trabalho suado e a disposição de muitos brasileiros em aceitar um emprego informal, seguir em frente a despeito do desrespeito da política, vão dar suporte às expectativas mais positivas para o país.

Fonte: G1 | Thais Herédia

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